Dois mundos em Macau

Viajar e cozinhar são dois prazeres que a chef Fernanda Griebeler cultiva sem moderação. Sempre em busca de aprimoramento e novas experiências, cada roteiro de trabalho ou de lazer tem espaço para uma pesquisa gastronômica. Em sua passagem por Macau, a chef se deliciou com pratos e sabores inusitados. Mas teve também um forte golpe de realidade ao se deparar com um desnível socioeconômico abissal.

Sorte e Azar
Única cidade da China em que o jogo é permitido, Macau abriga os maiores e mais luxuosos cassinos já vistos. A ostentação é total. Redes de casas de jogos famosas como Sands e o Venetian ali se instalaram e investiram sem medo, atraindo verdadeiras legiões de apostadores da China e de toda Ásia, além de endinheirados e curiosos do mundo inteiro. com essa movimentação intensa, Macau ultrapassou Las Vegas em termos de faturamento e lucratividade.

Exclusão
A indústria do jogo - e tudo que ela agrega, como grandiosos shows, hotéis, restaurantes e eventos premium - é responsável por boa parte do PIB local e movimenta positivamente tanto o turismo quanto a economia. Porém, esse enriquecimento fica restrito a uma faixa privilegiada. O cidadão comum, a classe trabalhadora e os residentes em Macau estão excluídos desse desenvolvimento vertiginoso. Fora do mundo de fantasia e riqueza desfrutado pelos turistas, a realidade é muito feia e bastante precária. Pelas ruelas e prédios sujos e abarrotados, a população se comprime em portinholas inesperadas e é ali que ele eles se alimentam. A pobreza é surreal. Inexplicável.

Português
Desde meados do século XVI até 1999, Macau foi ocupada pelos portugueses e as lembranças desse longo período podem ser vistas nas placas de rua escritas em português, na arquitetura do centro histórico e na culinária. O caminho entre as Ruínas de São Paulo e o Largo do Senado é um lindo marco da presença portuguesa. Mas não se iluda, é bem raro encontrar alguém falando português por lá.

Gastronomia
Pelas ruas do centro histórico ou nos restaurantes de primeira linha, instalados nas galerias dos maiores hotéis do mundo, a comida de Macau é cara, caríssima, mas está no centro das atenções de milhares de turistas, que, quando não estão comendo, estão jogando.
Há quase 500 anos, os portugueses levaram ingredientes da África, Índia e Malásia para Macau. Misturados com os produtos e as tradições locais, surgiram sabores singulares, que não se encontram em nenhum outro lugar do mundo. Assim como os cassinos, os grandes restaurantes e chefs internacionais investiram em luxuosos espaçoes por lá. A quantidade de casas com estrelas Michelin é impressionante. O cobiçado Grande Hotel Lisboa abriga dois restaurantes com três estrelas Michelin. O Robuchon au Dôme que, além da assinatura do chef francês Joel Robuchon, garante uma impressionante vista de Macau. Já o chinês The Eight, de culinária cantonesa, tem decoração inspirada em saúde (o número 8) e energia (peixe dourado), dois elementos tradicionais da cultura chinesa.
Para a população local, carne de gado é artigo de luxo, o consumo maior é de carne de porco, peixe, frango e legumes. E chama a atenção a onipresença do chá. De manhã, de tarde, de noite. Todas as refeições são acompanhadas por chá. Nos hotéis, ele é oferecido de graça.