Azeites e Vinhos também se misturam!

Por Ricardo Castanho 

Não há dúvida de que o mundo dos azeites é menos celebrado que o dos vinhos em terras brasileiras. Além da diferença brutal de locais de venda especializados e de cursos sobre os dois temas, todo mundo se lembra de importantes rituais e personagens ligados ao fermentado de uvas. Já ao azeite… Essa aparente falta de grandes referências históricas sobre o “ouro líquido”, contudo, não resiste a uma apuração mais atenta. E a gente acaba descobrindo que azeites e vinhos têm lá seus pontos de harmonização.

Vejamos, por exemplo, as mitologias grega e romana. Se o vinho ganhou um deus - Dionísio para os gregos e Baco para os romanos -, o azeite foi presente de uma deusa. E que deusa! Atena (ou Minerva) está associada a diversos segmentos: sabedoria, artes, guerra, justiça, habilidade. Numa disputa com Poseidon (ou Netuno), deus dos mares, ela teria conquistado o posto de divindade protetora de uma grande cidade grega recém-fundada. Depois de Poseidon oferecer um cavalo e uma fonte de água salgada para os habitantes do lugar, Atena concedeu uma oliveira, que produziria madeira, frutos e óleo, usado na Antiguidade como alimento, remédio e iluminação. Não à toa, a responsável pela melhor dádiva foi homenageada no nome da cidade, Atenas, hoje, capital da Grécia.

Mudamos para o cristianismo e lá está o vinho, simbolizando o sangue de Cristo. O que muitos não sabem, no entanto, é que o azeite participa não apenas de um, mas de quatro sacramentos. Ele entra na composição dos “santos óleos”, utilizados no Batismo, na Crisma, na Ordem (ordenação sacerdotal) e na Unção dos Enfermos. Na história de Cristo, há outro ponto de convergência entre azeite e vinho. Depois da consagração do pão e do vinho na Última Ceia, Jesus teria orado no Monte das Oliveiras, onde visitava o jardim Getsêmani, ou “prensa de azeite” na tradução do aramaico antigo.

Por fim, no terreno esportivo, mais especificamente nos pódios do automobilismo, o vinho, representado pelo champanhe, marca a celebração de vitória nos dias atuais. Muitos séculos atrás, os grandes atletas das primeiras Olimpíadas comemoravam de outra forma: com uma coroa de ramo de oliveira na cabeça (acreditava-se que a árvore de onde ele era retirado, em Olímpia, teria sido plantada por Hércules, filho de Zeus). Não raramente, o azeite também era entregue aos vencedores como um prêmio pelas conquistas.

Da próxima vez que observar oliveiras e parreiras juntas na paisagem mediterrânea, não se esqueça: elas têm mais pontos comuns ao longo da história do que só o gosto pelo clima temperado.

Ricardo Castanho é jornalista especializado em gastronomia e bebidas, sommelier profissional de vinhos e de cervejas. Atua também como produtor de conteúdo na agência Ao Sabor da Letra.